Uma Aventura de Mai
Desliza, movimenta, empurra, estica,
empurra mais um pouco. A escuridão era o único cenário que ela conhecia, mas
por pouco tempo. Estica as patas, empurra com a cabeça até escutar um “crack”.
Insiste, faz pressão com o corpo todo, agora uma pata de cada vez, e opa, mais
um “crack”. Continua, empurra, empurra, estica e com um estalo maior que os
primeiros rompe a casca de seu ovo. A luta não está ganha e ela vai continuar,
seus instintos a guiam para algo maior ainda ignoto.
Algo áspero começa a entrar no casco,
não a incomoda, até ajuda na hora de pegar impulso. Arrasta-se, sente fome e
coloca a boca no desconhecido que a cerca: péssima ideia. Balança a cabeça de
um lado para o outro na esperança de se livrar dos resquícios de sabe-se lá o
quê ela colocou na boca. Ainda sentindo o gosto ruim, persiste, uma pata de
cada vez e ainda está escuro. Uma pata de cada vez e espera, há movimento por todos
os lados. Sente medo, a solidão tinha oferecido no mínimo a sensação de
segurança e agora o que era isso à sua volta?
Após alguns segundos de medo
paralisante, ela retorna a seu movimento inicial com um pouco menos de garra.
Somente até ela recuperar o fôlego e continuar insistindo, sob montes e montes
de matéria desconhecida ela vai se agarrando como pode, à procura de uma saída.
Algum tempo se passa até que sua cabeça enfim encontre algo que não fosse
aquela substância áspera. O vento litorâneo atinge sua face, refrescando suas
pequenas narinas de réptil.
O frescor parece motivá-la, ela acelera
seus movimentos até que a cabeça inteira fique descoberta e seus olhos sejam
ofuscados pela primeira vez em contato com a luz do sol. Recobrada a visão,
pisca algumas vezes e só então dá-se conta do que se tratava o movimento que
sentira há alguns minutos: eram seus irmãos e irmãs. Dezenas de tartarugas
verdes iam se movendo nas areias da ilha de Trindade, o mais rápido possível
agora que chegaram à superfície.
A marcha pela praia de Espírito Santo
ia colorindo e agitando a areia, rapidamente as tartaruguinhas deixavam seu
rastro para trás, formando desenhos, seguindo em direção ao novo lar. Do ovo
para a espuma perolada e longas faixas de verde e azul de mar. Nossa
protagonista recém-nascida toca e é tocada pelas águas salgadas pela primeira
vez e todo o seu esforço parece ser recompensado.
Maitê, como gosto de imaginar que se
chamaria nossa pequena tartaruguinha verde, sentiu o mar frio lavando seu
corpo, tirando aos poucos toda a areia grudada. Logo ela e todas as outras
tartarugas foram levadas aos poucos para seu primeiro nado. O casco foi ficando
mais e mais leve até que ela não precisasse mais se preocupar tanto com seus
próximos movimentos, apenas nadar e conhecer a imensidão que se apresentava a
toda sua volta.
Um dia inteiro se passou e no decorrer
da viagem ela podia ver de forma cada vez mais esparsa seus semelhantes. Passou
por outras espécies marinhas que ela não tinha ideia do que eram e começou a notar
que elas nadavam na direção contrária da que ela seguia. Mas ela não tinha
trajeto ou destino pré-definido, apenas continuou nadando até que o denso
azul-marinho começasse a encontrar um novo tom que ela, até então, também não
conhecia. O azul foi se transformando em um marrom-alaranjado e Maitê a sentir
dificuldade ao se mover pela água. Este novo obstáculo fez com que ela
recordasse da saída do ovo para a areia. O caminho não era arenoso dessa vez,
era terroso, mas ela e seus irmãos continuaram se movimentando.
Tartarugas verdes são belíssimos seres
que podem se tornar centenárias, quando o ambiente é favorável. Maitê e seus
irmãos não sabiam disso, porém também não tinham consciência de que só teriam
um dia de vida. Novembro de 2015 era uma bela data para decidir não sair do
casco.
Dedico
às vítimas da tragédia de Mariana, independente de qual espécie fossem.
Camila Lopes de França Belém
Goiânia, 03 de dezembro de 2015.

