"Eu sou Ninguém. E você?
É Ninguém também?
Formamos par, hein? Segredo _
Ou mandam-nos p'ro degredo."
(Emily Dickinson)

quarta-feira, 16 de março de 2016

O barco de trás

O sorriso de Lorenzo

         O pesqueiro se aproximava do porto, de modo que o cheiro da pesca já pudesse ser sentido pelos transeuntes que estavam por ali. O barco não era grande coisa para quem visse, apesar de ser o sustento dos dois vultos circulando por ele. Os vultos foram ganhando forma e voz:
_ Rápido! Amarre a corda, temos muito a descarregar Kostas! _ seguido de_ Vamos, amarre logo o barco!
_Ora! Você sempre me dizendo o que fazer... Eu lá sou demente para não perceber que os peixes foram muitos hoje? Você devia estar contente.
_Deixa disso, homem. Por falar em demência... _ e olha na direção de uma sombra.
_O Lorenzo? Não sei não, para mim esse sujeito esconde algo de muito valor, se quer saber, Pietro. Ninguém é tão feliz assim, ainda mais um pobretão como ele, tão sujo quanto qualquer trabalhador do porto.
Próximo dali via-se um homem na enseada da praia, na direção aonde Kostas e Pietro olhavam, com calça dobrada até o joelho de forma a ressaltar suas canelas finas, era um tanto magro e sorria. Lorenzo Giacomini era esse homem, de singelo e curioso sorriso na face. Era uma boca como outra qualquer, eram dentes como outros quaisquer, contudo o sorriso inefável estampava um brilho que causava embaraço em quem quer que o visse. Para os otimistas o embaraço se desenrolava em esperança talvez se desdobrasse em um novo sorriso. Para os rabugentos a incompreensão gerava cinismo, em alguns inveja. Intrigante e dado a constância do riso (como se elogios lhe fossem sutilmente sussurrados, inaudíveis para outras pessoas): irritante.
Giacomini se movimenta, recolhe três baldes a direita de seus pés e caminha gingando com graça como as próprias ondas do mar. Passa pelo barco de Kostas e Pietro e acena com a cabeça de forma cordial, sem resposta dos pescadores prosseguiu até sua própria embarcação para cuidar do resto de sua da pesca. Já dentro de seu barco, coloca os baldes com cuidado na ponta oposta à que estavam os peixes. Um deles, o mais pesado continha livros e àquele cuja capa se sobressaía à abertura do balde intitulava-se: O velho e o mar, de Ernest Hemingway.
Algum tempo depois, com o trabalho feito, curva-se para lavar as mãos no mar. Ele não meramente se agacha, curva-se em postura humilde diante da imensidão que o afronta e o sustenta. Levanta e retorna à enseada da praia enquanto o crepúsculo brinca de colorir o céu preparando à vida para acomodar a noite. Tons de rosa mesclados com um intenso amarelo e alaranjado, unidos ao azul claro que aos poucos se torna mais e mais escuro, anunciando a partida do sol, a chegada da lua e em especial: das estrelas.
O céu tão azul quanto marinho dividiu suas luzes com o mar. No movimento sossegado, porém inconstante das ondas: o céu se fez mar. E na oscilação das ondas, as estrelas tão claras e brilhantes refletiam no sorriso do homem, na mureta do porto. As luzes iluminavam o tal homem de forma tão intensa como se ele fosse uma criatura divina. Esse homem, o pescador “demente”, era de fato criatura digna de divindade. Lorenzo arrebatava estabilidade diante de toda a instabilidade do mar, enxergava beleza onde todos só viam rotina. E permitia que as estrelas se prolongassem ao longo do dia em seu simples e constante sorriso.

                                                                                           Camila Lopes de França Belém


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