"Eu sou Ninguém. E você?
É Ninguém também?
Formamos par, hein? Segredo _
Ou mandam-nos p'ro degredo."
(Emily Dickinson)

sexta-feira, 18 de março de 2016

Terra à vista

Uma Aventura de Mai



Desliza, movimenta, empurra, estica, empurra mais um pouco. A escuridão era o único cenário que ela conhecia, mas por pouco tempo. Estica as patas, empurra com a cabeça até escutar um “crack”. Insiste, faz pressão com o corpo todo, agora uma pata de cada vez, e opa, mais um “crack”. Continua, empurra, empurra, estica e com um estalo maior que os primeiros rompe a casca de seu ovo. A luta não está ganha e ela vai continuar, seus instintos a guiam para algo maior ainda ignoto.
Algo áspero começa a entrar no casco, não a incomoda, até ajuda na hora de pegar impulso. Arrasta-se, sente fome e coloca a boca no desconhecido que a cerca: péssima ideia. Balança a cabeça de um lado para o outro na esperança de se livrar dos resquícios de sabe-se lá o quê ela colocou na boca. Ainda sentindo o gosto ruim, persiste, uma pata de cada vez e ainda está escuro. Uma pata de cada vez e espera, há movimento por todos os lados. Sente medo, a solidão tinha oferecido no mínimo a sensação de segurança e agora o que era isso à sua volta?
Após alguns segundos de medo paralisante, ela retorna a seu movimento inicial com um pouco menos de garra. Somente até ela recuperar o fôlego e continuar insistindo, sob montes e montes de matéria desconhecida ela vai se agarrando como pode, à procura de uma saída. Algum tempo se passa até que sua cabeça enfim encontre algo que não fosse aquela substância áspera. O vento litorâneo atinge sua face, refrescando suas pequenas narinas de réptil.
O frescor parece motivá-la, ela acelera seus movimentos até que a cabeça inteira fique descoberta e seus olhos sejam ofuscados pela primeira vez em contato com a luz do sol. Recobrada a visão, pisca algumas vezes e só então dá-se conta do que se tratava o movimento que sentira há alguns minutos: eram seus irmãos e irmãs. Dezenas de tartarugas verdes iam se movendo nas areias da ilha de Trindade, o mais rápido possível agora que chegaram à superfície.
A marcha pela praia de Espírito Santo ia colorindo e agitando a areia, rapidamente as tartaruguinhas deixavam seu rastro para trás, formando desenhos, seguindo em direção ao novo lar. Do ovo para a espuma perolada e longas faixas de verde e azul de mar. Nossa protagonista recém-nascida toca e é tocada pelas águas salgadas pela primeira vez e todo o seu esforço parece ser recompensado.
Maitê, como gosto de imaginar que se chamaria nossa pequena tartaruguinha verde, sentiu o mar frio lavando seu corpo, tirando aos poucos toda a areia grudada. Logo ela e todas as outras tartarugas foram levadas aos poucos para seu primeiro nado. O casco foi ficando mais e mais leve até que ela não precisasse mais se preocupar tanto com seus próximos movimentos, apenas nadar e conhecer a imensidão que se apresentava a toda sua volta.
Um dia inteiro se passou e no decorrer da viagem ela podia ver de forma cada vez mais esparsa seus semelhantes. Passou por outras espécies marinhas que ela não tinha ideia do que eram e começou a notar que elas nadavam na direção contrária da que ela seguia. Mas ela não tinha trajeto ou destino pré-definido, apenas continuou nadando até que o denso azul-marinho começasse a encontrar um novo tom que ela, até então, também não conhecia. O azul foi se transformando em um marrom-alaranjado e Maitê a sentir dificuldade ao se mover pela água. Este novo obstáculo fez com que ela recordasse da saída do ovo para a areia. O caminho não era arenoso dessa vez, era terroso, mas ela e seus irmãos continuaram se movimentando.
Tartarugas verdes são belíssimos seres que podem se tornar centenárias, quando o ambiente é favorável. Maitê e seus irmãos não sabiam disso, porém também não tinham consciência de que só teriam um dia de vida. Novembro de 2015 era uma bela data para decidir não sair do casco.


Dedico às vítimas da tragédia de Mariana, independente de qual espécie fossem.


Camila Lopes de França Belém

Goiânia, 03 de dezembro de 2015.


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